Psicóloga em Porto Alegre Madalena Leite
  • Madalena Leite

O que a minha infância tem a ver com o meu sofrimento atual?

Nunca se deu tanta importância para a infância quanto hoje. Nós cuidamos e educamos nossos filhos para que sejam felizes. Sabemos que o bem estar futuro deles está diretamente ligado a educação que eles têm hoje. São tantos os cuidados com os pequenos e mesmo assim conseguimos esquecer que um dia nós fomos crianças também. Nossas experiências infantis também deixaram marcas.


Quando nascemos, não sabemos nada do mundo. Vamos aprendendo de acordo com aquilo que experenciamos. Vamos a alguns exemplos. 1) Imagine a cor “mindu”. Como ela é? É cor de quê? Que sensação ela desperta? Aposto que você não conseguiu responder nenhuma dessas questões, porque você não teve nenhuma experiência com ela. Para você, ela não existe. Não está no seu repertório de experiências. 2) O filme O Quarto de Jack (2016) conta a história de uma vida em cativeiro a partir da perspectiva de um menino. Todos os conceitos que ele tem de mundo são baseados naquele mundo que ele conhece. Nada mais. ATENÇÃO SPOILER – Quando a mãe fala sobre fugir, Jack não consegue compreender que existe algo além do quarto, que o mundo é muito maior que o que ele via. 3) Imagine que você sofreu constantes abusos na infância, que não pode contar com o cuidado dos adultos. Qual a probabilidade de você aprender que adultos são confiáveis?


Conforme juntamos experiências, vamos agrupando-as em categorias: legal, ruim, bom, confiável, assustador, dolorido, alegre. Cada categoria se relaciona com um padrão de sentimentos e reações frente a determinadas situações. A partir disso, vamos construindo esquemas mentais, que são formas padronizadas de ver a vida. Isso acontece porque o nosso cérebro funciona a partir do princípio de economia cognitiva. Quanto menor a quantidade de energia gasta, melhor. Uma reação padronizada gasta menos energia do que analisar cada situação do zero.

Os esquemas mentais são um conjunto de crenças sobre nós mesmos, o mundo, os outros e o futuro. São a partir deles que reagimos as situações cotidianas. Eles orientam nossos comportamentos, sentimentos e reações. Uma pessoa que se acha defeituosa, terá vontade de conhecer novas pessoas e fazer amigos? E uma pessoa que acredita que no futuro dará tudo errado, irá se engajar em novos projetos?


A realidade passa pela percepção de cada um – por exemplo, duas pessoas podem sofrer o mesmo acidente de carro e contar histórias completamente diferentes. Por quê? A memória passa pelo crivo de cada um – é como se as pessoas usassem óculos diferentes para verem o mundo. Esses óculos são os esquemas mentais. Óculos que foram construídos a partir de suas experiências desde que nasceram. Isso inclui os defeitos de fabricação – pequenas distorções na imagem real.

Esses defeitos de fábrica não são inatos, mas modelados de acordo com a nossa história. Podem deixar a visão meio embaçada, fazendo com que seja difícil enxergar o mundo com nitidez, assim como podem conter distorções semelhantes àqueles da casa de espelhos do circo, sabe? Essas distorções em algum momento foram reforçadas pelo ambiente, ou seja, fizeram sentido na nossa história. Uma criança que só ganha afeto quando chora, tem essa como uma estratégia de sobrevivencia.

O grande problema é que por economia cognitiva tendemos a reagir sempre da mesma forma, mesmo que não funcione mais.

Se você tem um problema para resolver, só chorar vai ajudar? Quando você era criança, podia funcionar, já que vinha um adulto cuidar de você, mas e agora?


Além disso, pensamos que só existe aquilo que experenciamos (como o Jack), dificultando que nos portemos de maneira diferente. Se fomos maltratados na infância, esperamos que nos maltratem quando adultos (isso não é tão consciente assim) – inclusive procurando e nos mantendo em relacionamentos que repitam experiências passadas. Se nosso cérebro está acostumado com sofrimento, ele procurará sofrimento. Assim como um daltônico que nunca viu a cor verde e não sabe diferencia-la de outras cores, se não vivenciamos relações saudáveis enquanto crescemos, pode difícil encontra-las espontaneamente ao longo da vida. Acabamos tendo um viés de atenção para aquilo que conhecemos, mesmo que não seja o mais saudável.

Assim as nossas cicatrizes fazem com que tenhamos algumas vulnerabilidades e não outras. Dependendo do que vivemos, temos mais probabilidade de ter alguns tipos de feridas. Uma pessoa que perdeu os pais na infância, pode ter ativada novamente uma sensação de perda irreversível ao separar-se do conjuge, por exemplo.

São esses óculos que serão colocados para lidar com cada estressor do dia a dia. Isso não quer dizer que estamos fadados a sofrer para o resto da vida. A Terapia Cognitivo-Comportamental busca desembaçar esses óculos para que se possa enxergar o mundo com mais clareza.


De tempos em tempos, pode ser que eles voltem a ficar embaçados, mas isso não quer dizer que a terapia não foi efetiva. Nenhum tratamento psicológico tem resultado para sempre. Se você pega gripe, faz o tratamento e melhora, você não diz que o tratamento não funcionou quando você pega outra gripe 6 meses depois, certo? Sofrimento psicológico segue a mesma linha de raciocínio. As marcas que trazemos da infância sempre estarão conosco: fazem parte da nossa história, de quem nós somos. Podemos, no entanto, aprender a lidar com esse passado e com as demandas atuais de forma mais saudável. O foco da terapia é desativar esses esquemas mentais que trazem sofrimento e ensinar estratégias para lidar com eles.

Atenção: Esse texto foi escrito com base em conceitos da Terapia Cognitivo-Comportamental. Outras abordagens talvez expliquem esse fenômeno por outros conceitos.


Psicóloga Madalena Leite

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